
Capacidade sugere que a inteligência desses animais evoluiu para manter o controle de interações sociais em grandes grupos
Hienas podem contar até três. Pesquisadores emitiram chamadas gravadas para esses sagazes carnívoros e descobriram que as hienas selvagens manchadas (Crocuta crocuta) responderam de formas diferentes, dependendo de ter ouvido um, dois ou três sons, individualmente.
O resultado acrescenta a avaliação numérica para a lista de habilidades cognitivas que hienas podem compartilhar com primatas e reforça a ideia de que viver em grupos sociais complexos – como os primatas e as hienas fazem – é a chave para a evolução de grandes cérebros.
Sarah Benson-Amram, zoóloga da Michigan State University, em East Lansing, e outros pesquisadores emitiram gravações de chamados de hiena a membros de dois clãs de hienas na Masai Mara National Reserve, no sudoeste do Quênia. As gravações foram feitas na Tanzânia, Malawi e Senegal; por isso os chamados eram desconhecidas para os clãs do Quênia e teriam sido interpretadas como pertencentes a invasores em potencial.
As gravações de cada local consistiram em três chamados de hienas, a partir de um, dois ou três animais diferentes. Em 39 estudos envolvendo momentos de descanso de animais adultos – principalmente do sexo feminino e desacompanhados –, Benson-Amram mediu quão vigilantes os animais se tornaram, enquanto as gravações passavam, comparando a quantidade de tempo em que transitavam em frente ao alto-falante com a quantidade de tempo em que ficavam olhando para longe ou descansando.
Embora algumas fêmeas tenham se tornado igualmente atentas em resposta a todas as gravações, a maioria dos animais fez a distinção entre invasores de um, dois ou três animais, aumentando a atenção conforme aumentava o número de chamadas que ouviam. A descoberta foi publicada no Animal Behaviour.
Uma habilidade similar já fora demonstrada anteriromente entre leões (Panthera leo), chimpanzés (Pan troglodytes) e macacos bugio preto (Alouatta pigra). Mas, na maioria desses estudos, as chamadas foram emitidas de uma só vez, razão pela qual os animais puderam simplesmente ter respondido à quantidade total de ruídos no coro.
Para evitar isso, Benson-Amram reproduziu consecutivamente as chamadas – tanto repetindo a mesma como misturando sons de dois ou três indivíduos. Para ter ideia de quantos adversários estavam enfrentando, as hienas ouvintes não apenas deveriam se lembrar de quantas chamadas soaram de um modo geral, como também tiveram de reconhecer se já tinham ouvido cada indivíduo particular antes.
Michael Wilson, antropólogo da University of Minnesota que realizou estudo anterior com os chimpanzés, descreve o trabalho como “sofisticado” e diz fazer sentido que as hienas sejam tão hábeis com números. “Suas vidas dependem de defender territórios no grupo e manter o controle de quantos rivais enfrentam”, diz ele. “Você não quer começar uma briga com seus vizinhos se estiver em desvantagem.”
Grandes grupos, grandes cérebros
O orientador do Ph.D. de Benson-Anram, Kay Holekamp, passou mais de 20 anos estudando as habilidades cognitivas das hienas para provar a “hipótese da inteligência social”, que postula que os primatas evoluíram para grandes cérebros para manter o controle das complexas rivalidades sociais existentes quando se vive em grandes grupos. Hienas oferecem a oportunidade perfeita para se testar essa ideia. Vivem em clãs hierárquica e socialmente voláteis de até 90 indivíduos, com subgrupos conflitantes de tamanhos variados. “As hienas foram expostas exatamente às mesmas pressões seletivas pelas quais passaram os macacos”, afirma Holekamp. Se a hipótese da inteligência social estiver correta, as hienas são tão brilhantes quanto os primatas. Holekamp já havia descoberto que as hienas de fato se equiparam aos primatas em termos de muitas habilidades sociais, incluindo distinção entre parentes e não parentes e manutenção do status social relativo de diferentes indivíduos. Mas o estudo mais recente é um dos primeiros a investigar uma habilidade não social em hienas. Além de possibilitar um papel no subgrupo de conflito ou na guerra de clãs, a habilidade rudimentar de avaliar os números poderia ser útil em outras situações, como quando competindo com os leões para obtenção de alimento. As hienas provavelmente não conseguem distinguir números individuais muito maiores que três – os primatas, em geral, diferenciam seis ou sete, no máximo. Mas Benson-Amram relata que as hienas podem ser capazes de julgar o tamanho relativo dos grupos maiores para resolver o conflito sem lutar. No geral, diz Holekamp, há “convergências enormes e muito interessantes” entre as capacidades intelectuais de hienas e primatas. Hienas parecem ser mais espertas do que outros carnívoros, como os leões, que vivem em grupos menores e são descritos por Holekamp como “surpreendentemente robóticos em suas respostas a situações”.“As hienas vivem em grupos como primatas e parecem ter as habilidades cognitivas dos primatas”, concorda Wilson. Mas apesar de um ambiente social complexo ser uma razão importante da inteligência, Holekamp adverte que não é só isso. Mesmo que as hienas experimentem virtualmente pressões sociais idênticas, “macacos tendem a ser mais espertos do que os carnívoros”, ressalta. “É evidente que outras coisas são importantes também.” |
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